Texto original publicado na Revista Marie Claire

Quem assistiu à entrevista da pré-candidata à presidência Manuela D’Ávila no programa Roda Viva, da TV Cultura, acompanhou a um constrangedor e revoltante show de interrupções. Em primeira instância, a gente se pergunta: Qual é o sentido de uma entrevista em que a convidada não consegue responder, e o eleitor fica sem ouvir as propostas e planos para o Brasil que, de fato, deveriam ter sido o foco do programa?

No entanto, o buraco é mais embaixo. Falta de educação e de postura à parte, essa prática tem nome e é intensamente dirigida às mulheres ao redor do globo. Tamanha frequência e especificidade ganhou nomenclatura: manterrupting – a interrupção desnecessária  enquanto uma mulher está falando. Importante constatar que ambos os gêneros tendem a interromper mais seu interlocutor quando a pessoa com quem conversam é uma mulher.

Os números não deixam desviarmos da questão. Em suas entrevistas ao mesmo Roda Viva, Ciro Gomes foi interrompido 8 vezes, Guilherme Boulos, 12 e, Manuela, 62.

Esse é um tipo de recurso sexista que visa frear ou atrapalhar a comunicação, o raciocínio e argumentos de mulheres. Um ato desrespeitoso que tenta nos inferiorizar e desmerecer nossas falas. Traduzindo: é mais um tipo de violência da qual mulheres são vitimas cotidianamente.

Mulheres, ainda mais em seu ambiente de trabalho, vivem na batalha para se fazerem ouvidas e são mais propensas a serem ignoradas, atravessadas ou tidas como agressivas no exercício da comunicação.

Todas nós já passamos pelo revoltante momento em que nossa fala e nossas ideias são refutadas, para depois serem aceitas e aplaudidas na boca de um homem. Ou então, quando um homem questiona e implica com as informações que estão sendo dadas a respeito de um assunto que você tem pleno domínio, muitas vezes seguido de uma explicação empobrecida do mesmo. Damos a vez a outra ferramenta sexista chamada mansplaining – o fenômeno de explicar o óbvio a uma mulher.

Se você for uma mulher negra, essas dificuldades são multiplicadas por dez. Jamais esqueçamos que ainda existem mulheres lutando para ter voz. Nós, brancas, temos um lugar de fala privilegiado, recebemos mais empatia e estamos em maior representação. Jamais nos conformemos com o que aconteceu com Marielle Franco e como as facetas do racismo são acachapantes e letais.

Dentro da luta pela igualdade, sabemos que é no plano político e público que podemos mudar o jogo e emplacar um futuro mais justo.

Curiosamente, o termo manterrupting” apareceu pela primeira vez artigo Speaking while Female (falando enquanto mulher), em 2015, no The New York Times, escrito por Sheryl Sandberg e Adam Grant. Na análise dos autores, é citado um estudo feito por psicólogos de Yale que demonstrou como senadoras americanas se pronunciavam consideravelmente menos que seus colegas masculinos, inclusive os de posições inferiores.

Somos a maioria da população mundial e também no Brasil, porém, a presença feminina nas esferas de poder e do debate público ainda é minúscula perto do que deveria ser. Somos mais escolarizadas que os homens, nos comunicamos melhor e temos maior tendência a pensarmos no conjunto de realidades graças a nossa socialização. Uma combinação poderosa para as esferas políticas e diplomáticas. Me arrisco a dizer que é por isso que tentam barrar essa potência.

À midia que perpetua esse tipo de violência intelectual e aos profissionais que abriram mão da ética e da responsabilidade de suas funções, fica aqui meus mais sinceros pêsames.

Os tempos são outros e vocês não nos calarão!

 

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